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João Pires Cutileiro

Nasce em Lisboa em 1937. Frequenta, desde novo, ateliês de importantes artistas plásticos. Aprende desenho com António Pedro. Com Jorge Barradas assimila o gosto pelo decorativismo e pela assemblage de diferentes cores e texturas e, por fim, com António Duarte, inicia-se na arte de esculpir a pedra. Aos 14 anos faz a primeira exposição individual numa loja de máquinas de costura em Reguengos de Monsaraz.

Entra na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa aos 16 anos depreendendo, dois anos mais tarde, a impossibilidade de desenvolver plenamente o seu experimentalismo e criatividade sem abandonar o academismo português, dominado pela omnipresente estética da “Política de Espírito”, preconizada em particular pelo seu professor Leopoldo de Almeida. Escolhe a Slade School of Arts em Londres, onde é pupilo e, mais tarde, assistente de Reg Butler.

Nos primeiros anos, trabalhará principalmente a cerâmica e o gesso. Em 1966, numa visita a uma fábrica de mármores em Lagos, descobre as potencialidades criativas, e também económicas, do corte da pedra com máquina eléctrica. Na sequência disto, Cutileiro trabalhará exclusivamente em mármore e pedra, concebendo um estilo escultórico em que os objectos tanto se caracterizam pela simulação de um tratamento artesanal, como ostentam a visível caligrafia da máquina. As obras assentam na ambiguidade entre o trabalho do homem e o das forças da natureza; são disso bons exemplos os seus Torsos, nos quais colidem valores da escultura clássica e moderna.

A década de 60 marca a escolha da temática que irá dominar toda a sua produção, o erotismo, particularmente explorado através da figura feminina, mas também presente nos seus pássaros e flores. Um erotismo que aparece livre de tabus e moralidades, assente numa figuração ora carnal, ora metafórica. Contudo, o erotismo não está patente apenas nos objectos que cria. Cutileiro ambiciona que a sensualidade esteja presente no desfrutar das suas obras, através de um olhar essencialmente táctil e provocatoriamente “voyeurista”.

A sua técnica é inovadora: a articulação de diferentes elementos, mármore de texturas e cores distintas, geradoras de tensões no seio da própria peça. O método é clássico: trazer à superfície as formas inerentes ao bloco de pedra, através da remoção do que é supérfluo, de modo a reter a sua identidade material e física.

O seu percurso é marcado por diversos momentos de viragem, que se apresentam sobretudo como soluções de problemas técnicos, logísticos e económicos que lhe foram surgindo, como foi o caso do nascimento das Bífidas, evidenciando, desta forma, não uma obra fortemente meditada e planeada, mas um percurso fundado num incansável experimentalismo, com o objectivo último de aprofundar a expressividade da pedra.

1973 é o ano de D. Sebastião, a peça mais polémica de toda a sua carreira. Para além dos (muitos) sentimentos que esta escultura, colocada numa praça da cidade de Lagos, possa ter suscitado, D. Sebastião marca uma ruptura definitiva na estatuária nacional, ao ser o primeiro monumento a desafiar a sua lógica comemorativa. Cutileiro apropria uma das figuras mais emblemáticas da mitologia portuguesa, criando um antimonumento, assente na ambiguidade (sexual) do jovem rei, desmistificando simultaneamente o seu estatuto heróico e a suas virtudes guerreiras.

Outras peças questionarão também essa iconografia estereotipada, como é o caso da Maqueta para Estátua Equestre. Uma escultura aparentemente clássica, que substancia as preocupações estéticas do autor. Cutileiro começa por questionar as especificidades da estatuária pública ao atribuir à peça uma dimensão longe da monumentalidade usual. Os membros inferiores do cavalo, assim como as pernas do cavaleiro, confundem-se e afundam-se no próprio bloco da pedra, conferindo à cena uma imobilidade ridícula e irónica. Ironia que se vê reforçada pelo manifesto anonimato do próprio cavaleiro.

Cutileiro abre a porta para a grande ruptura na escultura portuguesa do século XX, que ocorrerá efectivamente na década de 80. Fá-lo não só através da sua própria obra, mas igualmente pelo trabalho de formador na Escola da Pedra em Lagos, por onde passaram alguns dos artistas, como José Pedro Croft e Manuel Rosa, que protagonizam essa transformação.



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